Quando a construção da Capela Sistina foi concluída, o teto tinha sido pintado de azul e estava pontilhado de estrelas por Pier Matteo d'Amelia. No entanto, o Papa Júlio II tinha uma visão mais grandiosa para o teto e recorreu a Miguel Ângelo, apesar de o artista ser sobretudo conhecido pelas suas capacidades como escultor. Em 1506, o Papa pediu a Miguel Ângelo que pintasse os Doze Apóstolos nos pendentes de suporte do teto, tendo este, por sua vez, proposto algo mais complexo e ambicioso.
Miguel Ângelo planeou pintar todo o teto com cenas do Livro do Génesis, culminando na criação de Adão. Embora o Papa fosse a favor de uma iconografia mais tradicional, o artista considerou que a sua representação alegórica das cenas do Antigo Testamento transmitiria melhor a mensagem e as crenças cristãs. Os dois começaram a discutir acaloradamente sobre o tema do teto, mas Júlio II acabou por ceder e Michelangelo teve liberdade para realizar o projeto.
Estabelecer as bases de uma obra-prima
O artista florentino considerava que o seu rival mais jovem, Rafael, era mais adequado para a tarefa, mas o Papa insistiu e foi feito um acordo. Miguel Ângelo fez audições para encontrar pintores mais experientes em frescos para o projeto. No entanto, não conseguiu encontrar ninguém adequado, pelo que optou por realizar a monumental tarefa sozinho. Utilizando andaimes independentes, Miguel Ângelo começou a trabalhar em 1508 a partir da extremidade oeste do teto da capela, de modo a causar o mínimo de perturbações.
O seu percurso foi feito em ordem inversa, partindo das três histórias de Noé (a sua desgraça, o Grande Dilúvio e o seu sacrifício após o dilúvio), seguindo-se a história de Adão e Eva e terminando com a Criação. À volta dos painéis do teto, Miguel Ângelo pintou profetas, sibilas e antepassados de Jesus Cristo, enquanto nos cantos representou cenas da Salvação de Israel. No total, os frescos cobrem uma área de cerca de 500 metros quadrados e representam mais de 300 figuras da mitologia cristã.
A primeira metade do teto foi pintada no verão de 1511 e, após uma pausa para a construção de novos andaimes, os restantes frescos foram concluídos um ano mais tarde. O teto completo foi revelado publicamente para aclamação da crítica e apreciação no Dia de Todos os Santos em 1512, cimentando a reputação de Miguel Ângelo como um dos maiores artistas da sua época.
A Criação de Adão
Todas as superfícies do interior da Capela Sistina estão decoradas, mas o fresco mais famoso é, sem dúvida, a Criação de Adão. A peça central foi reproduzida inúmeras vezes e é considerada uma das maiores obras de arte religiosa. Na pintura intrincadamente detalhada, o Deus de barbas brancas estende o seu braço direito para dar vida ao protoplasma da humanidade. Adão, deitado nu sobre a terra, é colocado de forma a espelhar o seu criador, reforçando assim o conceito de que o homem foi criado à imagem de Deus.
A representação dramática da cena bíblica é impressionante e cativante na sua simplicidade e, após uma inspeção mais atenta, surgem muitos mais pormenores e camadas de significado. Enquanto muitos destes pormenores são bastante simples e fáceis de identificar, outros são mais ambíguos e envoltos em mistério. Tudo, desde a composição até à identidade das figuras circundantes e à sua anatomia, tem sido fonte de muitos debates.
Esta abordagem multifacetada foi concebida, uma vez que o Papa Júlio II queria que o teto fosse altamente simbólico, mas também se deve aos próprios méritos artísticos de Miguel Ângelo e à interpretação dos ensinamentos católicos e das Sagradas Escrituras. Há muitos pormenores pequenos e imperceptíveis que estão abertos à especulação e à interpretação.
Um mosaico de significados e mistérios
Entre elas está uma aparente costela extra em Adão, que se diz representar Eva. Embora se possa atribuir este facto a um erro do artista, Miguel Ângelo tinha um vasto conhecimento da anatomia humana. A identidade das 12 figuras que rodeiam Deus no fresco é também um mistério. Tem sido sugerido que a pessoa junto ao braço esquerdo de Deus, que olha para Adão, é a alma de Eva. Em alternativa, a figura poderia ser um anjo, a Virgem Maria, a personificação da Sabedoria ou mesmo a alma da própria humanidade.
O manto que envolve Deus também tem estado no centro de muitos debates, com alguns a afirmarem que tem a forma do cérebro humano. De acordo com esta teoria, as dobras e a forma assemelham-se ao cérebro, ao tronco cerebral e ao lobo frontal. Uma teoria mais ousada e simbólica sugere que o manto representa um útero, o que significa que o fresco representa o nascimento literal da humanidade. Nesta teoria, o lenço saliente representa alegoricamente o cordão umbilical, o que explica convenientemente o umbigo de Adão.
Embora possa nunca haver respostas e explicações conclusivas para muitos dos mistérios teológicos e simbólicos, o sublime sentido de elegância e beleza dos frescos da Capela Sistina e da obra-prima de Miguel Ângelo continuará a atrair milhões de visitantes todos os anos.
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